Nota Mensal

Relatório De Economia E Mercados                                                                       July 14, 2008

Um turbilhão de eventos levou os mercados financeiros a um dos momentos de maior volatilidade dos últimos tempos. A semana começou com as notícias de falência da Lehman Brothers, de incorporação da Merril Lynch pelo Bank of América e de um pacote de ajuda governamental para a AIG, a maior seguradora americana. A descrença com relação ao sistema financeiro chegou ao seu ápice em meados da semana com uma série de bancos, principalmente os bancos de investimentos como Morgan Stanley e Goldman Sachs, no centro das desconfianças. Os investidores passaram a se desfazer com muita velocidade destas instituições financeiras sem base de depósitos a vista ou a prazo como as que têm os bancos comerciais. No final da semana, assistimos a uma forte reversão das expectativas. O pacote de ajuda ao sistema financeiro arquitetado pelo Banco Central, Tesouro e Congresso americanos diminuiu muito as tensões dos investidores de que um dominó de falências pudesse varrer os principais bancos do país. Foi particularmente importante a decisão do governo de dar suporte aos fundos de renda fixa de curto prazo, money market funds, que vinham apresentando uma enorme fuga de investidores.



Paralelamente à decisão do governo americano de assumir parte dos títulos de valor duvidoso dos bancos e de dar suporte aos fundos money market, também melhorou o humor dos investidores a ação coordenada dos principais bancos centrais mundiais para conter a alta dos juros interbancários. Enquanto os juros pagos pelo governo americano para prazos curtos caíram para patamares historicamente mínimos, os juros pagos pelos bancos para tomar recursos de outros bancos (Libor) dispararam como mais um indicador de desconfiança no sistema bancário. Para contrabalançar tal situação, os bancos centrais ofereceram linhas de até US$250 bilhões para os bancos fazerem frente a quaisquer necessidades de recursos. Com as medidas focadas diretamente em solucionar o problema de liquidez do sistema financeiro, as bolsas de valores conseguiram recuperar boa parte das perdas do início da semana

Apesar de mantermos uma visão cautelosa devido à complexidade do atual processo de consolidação do sistema financeiro, acreditamos que há alguns razões para otimismo com relação aos mercados em uma visão de longo prazo. Em primeiro lugar, destacamos a queda da inflação em praticamente todo o mundo que deverá permitir redução dos juros, caso seja necessário. Nos EUA, tanto a inflação ao consumidor quanto a inflação ao produtor mostraram deflação em agosto após terem atingido níveis muito elevados nos meses anteriores. Na China, a inflação voltou a recuar permitindo ao banco central chinês (BoC) cortar os juros pela primeira vez em mais de 6 anos. Também no Brasil, os indicadores de preços recuaram significativamente levando a maior parte dos analistas a reverem suas expectativas de inflação para baixo tanto para este como para o próximo ano. Em segundo lugar, apesar da atividade econômica estar se enfraquecendo nos EUA, Europa e Japão, a economia global deve manter um crescimento adequado, em torno de 4%, amparada no bom crescimento dos emergentes. Em terceiro lugar, alguns problemas estruturais americanos como a bolha do mercado imobiliário e o elevado déficit comercial vêm se revertendo indicando uma economia bastante mais equilibrada nos próximos anos. E, finalmente, as bolsas internacionais já vêm caindo há algum tempo e começam a mostrar preços bastante convidativos. Ou seja, em uma eventual reversão do sentimento negativo com ralação ao sistema financeiro, os investidores poderão se concentrar nos eventos macroeconômicos que, do nosso ponto de vista, indicam mercados financeiros mais positivos.


Brasil


O varejo voltou a mostrar sinais positivos em julho com as vendas subindo 11% frente ao mesmo mês do ano passado. Na comparação mensal, as vendas do comércio caíram 0,2% frente a junho. No entanto, uma ligeira queda era esperada uma vez que as vendas haviam subido muito nos meses anteriores. No acumulado dos sete primeiros meses do ano, as vendas do comércio cresceram 10,6% frente ao mesmo período de 2007. Novamente, as vendas de eletrodomésticos impulsionaram o varejo registrando uma alta de 19,6% frente ao ano passado. As vendas de material de escritório também subiram com força (+20,6%). O indicador ampliado, que inclui as vendas de automóveis e de material de construção, registrou alta de 16,5% ante julho de 2007. O indicador subiu 1,0% na comparação mensal atingindo o maior patamar da história. As vendas de automóveis foram responsáveis pela excelente performance do indicador ampliado, tendo registrado alta das vendas de 26% na comparação anual. Para os próximos meses esperamos um arrefecimento dos resultados do comércio. As razões para esperarmos um desempenho menos exuberante são: 1) o aumento do custo do crédito, o que deve afetar particularmente as vendas de automóveis e eletroeletrônicos; 2) a elevadíssima base de comparação no caso das vendas de automóveis e de eletroeletrônicos e; 3) a maior seletividade dos bancos para a concessão de crédito.



EUA


A inflação ao consumidor (CPI) acompanhou a queda da inflação ao produtor e registrou variação negativa em agosto. O CPI recuou 0,1% no mês, após ter registrado alta de 0,8% em julho. No acumulado de 12 meses, o CPI ficou em 5,4%, um leve recuo frente a alta de 5,6% em 12 meses até julho, que havia marcado o maior patamar inflacionário desde 1991. O principal responsável pelo recuo da inflação no mês passado foi o preço da energia, que recuou 3,1%. Os preços dos alimentos subiram 0,6% após alta de 0,9% em julho. Já os preços dos aluguéis subiram 0,1%. O núcleo do indicador, que exclui alimentos e energia, subiu 0,2% após alta de 0,3% em julho. Em 12 meses, o índice núcleo manteve-se estável em 2,5%. As expectativas são de que a inflação volte a mostrar arrefecimento nos próximos meses acompanhando a queda dos preços das commodities e a redução do ritmo de atividade. A maior parte dos analistas, bem como também sugere o FED, encontra-se mais preocupada com o nível de atividade econômica do que com a trajetória da inflação.



Vários outros indicadores da economia americana mostraram atividade fraca. O início de novas construções caiu 6,2% em agosto para uma taxa anualizada de 895 mil unidades, o menor patamar desde 1991. Comparando com agosto de 2007, o indicador de início de novas construções já caiu 33%. Na soma entre as vendas de residências novas e já existentes já caiu 36% do pico atingido em 2005. As vendas de casas ainda em baixa e preços dos imóveis em queda (-19% frente ao pico atingido em julho de 2006) indicam que o mercado imobiliário ainda não atingiu seu ponto mínimo.

Indicadores de inflação mais benignos e indicadores de atividade econômica mais fracos levaram o Comitê de Política Monetária americano (FOMC) a manter os juros estáveis em 2% ao ano na semana passada. Segundo o FOMC os riscos para baixo da economia e para cima da inflação são igualmente preocupantes”. Ainda segundo o FOMC “as condições apertadas de crédito, a contração no mercado imobiliário e alguma redução do ritmo de crescimento das exportações devem pesar sobre o crescimento econômico nos próximos anos”. “No entanto, no decorrer do tempo, a substancial redução dos juros já promovida associada às medidas de aumento da liquidez no sistema financeiro deverão ajudar a promover um crescimento econômico adequado”. Segundo sugeriu o FOMC, portanto, o FED deverá dar foco à crise no sistema financeiro através de medidas pontuais direcionadas às instituições financeiras ao invés de um generalizado afrouxamento da política monetária. É provável que o FED mantenha os juros estáveis em 2% pelo menos até o final do ano.


Europa


A Zona do Euro registrou em julho o maior déficit comercial desde o início da moeda única em 1999 devido à alta do preço do petróleo e à redução da atividade global. Os 15 países que compõem a região do euro registraram déficit de US$9,1 bilhões. Do lado das importações, o preço elevadíssimo do petróleo em julho elevou os gastos com a compra do produto em mais de 40% na comparação anual. Do lado das exportações, o que mais contribuiu para o enfraquecimento do resultado comercial foi a redução das vendas para os EUA, que caíram 4,0%. A China mantém-se como o país que mais contribui para o déficit comercial europeu. No ano até junho, o déficit com a China atingiu 50 bilhões de euros, um ligeiro recuo frente ao mesmo período do ano anterior, mas ainda assim um patamar elevadíssimo.

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